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Costurar ou atender no meu consultório? Os dois.

Adriana Ribas

Alguns sabem, outros não, mas meu hobby é costurar e criar novidades com mil materiais ...

Eu estava costurando um dia desses e me dei conta de que meu trabalho no consultório também é costurar. Acredite, eu costuro todos os dias. Parte da costura eu faço em casa, no meu quartinho de costura, parte da costura faço no consultório. Deixe-me explicar.

Sempre me encantei com a biografia de Roald Dahl e especialmente com a passagem na qual ele conta o que aconteceu no seu quarto aniversário: “ (...) Minha mãe disse: “ Vamos escrever ‘trajes de  gala’ nos convites. Eles vão adorar. Decidi que eu seria o Pequeno Azul porque gostava da musiquinha. Minha animação e nervosismo causaram agitação na minha bexiga e as comportas se abriram e veio um monte de pipi como um jato de mangueira. Logo a frente das minhas lindas calças azuis de veludo cobriu-se com uma mancha enorme, preta e molhada. Comecei a gritar e fui retirado da sala por minha mãe que me vestiu, como sempre com um calção de flanela cinza e camisa branca. ‘Deixe para lá’, ela disse. E se perguntarem quem você vai ser, diga-lhes que está vestido de si mesmo porque terá que ser você o resto da vida.”

Roald precisava vestir suas próprias roupas e apropriar-se dele mesmo. O mais fantástico é receber essa ordem e autorização de sua própria mãe. Isso é lindo demais. Infelizmente, não é sempre assim.       

Crianças muitas vezes chegam aos nossos consultórios sem saber quem são, o que desejam, do que precisam. Tantas vezes não sabem nem o que querem, apenas desejam aquilo que todos têm, os mesmos jogos, as mesmas roupas, sapatos, os mesmos passeios, desejam apenas ser iguais aos outros. Nisso se distanciam da mais primorosa tarefa: a de vestirem-se delas mesmas, conhecerem-se a si mesmas. As famílias, claro, as famílias muitas vezes vêm na mesma direção, aquela de tornarem-se iguais às outras e mais, tornarem-se melhores. Melhor mãe que a outra, melhor pai que o outro, ter a melhor casa, melhor carro, apartamento, viagem. Essa é uma das realidades com as quais lidamos entre muitas famílias de classe media e alta. A realidade quando trabalhamos em atendimentos sociais e comunitários em certo sentido também é a de distanciamento do conhecer a si mesmo. Neste caso a questão socioeconômica dá outro entorno, mas a meu ver a questão central permanece. O distanciamento de si mesmo tem também relação com a escassez de tempo para se voltar para si, com o preenchimento da vida cotidiana com preocupações básicas de sobrevivência e modos de driblar as dificuldades de recursos, tem relação com a falta de suporte social, com a dureza da vida diária e com a lógica social que contribui para que aqueles menos favorecidos em educação, recursos financeiros e sociais desejem ser outras pessoas que não são elas mesmas. Metaforicamente, eles recebem mensagens de inadequação, suas “roupas” estão sempre inadequadas. As roupas adequadas são as roupas dos outros.

Muitas vezes me percebo lidando com a mesma questão. Metaforicamente, as crianças, adultos, famílias estão vestindo fantasias e/ou as roupas iguais às de outras pessoas. Algumas ainda nem começaram a perceber do que se vestem, nem percebem que não escolhem, só vestem a roupa igual a de alguém, ou a roupa que alguém lhe deu para vestir. Algumas, felizmente, já percebem as próprias roupas, percebem que nunca escolheram de fato essas roupas e se incomodam com o que estão vestindo, buscam suas verdadeiras roupas.

O trabalho no consultório, então, exige arregaçar as mangas, procurar linhas, tecidos, agulhas, moldes, botões e junto com cada um com quem tenho a alegria e o prazer de trabalhar, ir auxiliando no processo em que eles descobrem quem são, do que gostam, que roupas realmente desejam, como se sentem, finalmente vão se autorizando e sendo autorizados a vestir suas roupas e se aproximar deles mesmos.

É um trabalho de costura sim, um trabalho em que partimos de um corte de tecido, linhas, agulhas, moldes, estilos, cores e daí em diante o processo é original, único. Vamos colaborando no processo em cada criança se olha no espelho, reconhece seu corpo, seu rosto. Percebe que tem um determinado contorno. Enxerga cores, escolhe a cor, seleciona o tecido, percebe que tipo de roupa necessita, avalia o modelo que gostaria de ver em seu corpo, do seu jeito. A sua roupa, não a roupa do outro.

A construção da sua própria roupa depende do conhecimento de si mesmo. Não posso escolher uma roupa para mim se não sei quem eu sou. Mas posso facilmente querer e vestir a roupa do outro se não faz diferença quem eu sou, aliás nem me conheço mesmo. Contento-me com qualquer roupa. Roupa igual.

O meu trabalho de costura exige que eu cuide para não querer fabricar roupas iguais para todas as crianças, afinal se aprendo a fazer uma roupa, fica fácil repetir e fazer outra igual e outra igual. Mas não, isso não quero. Essa costura exige deixar de lado o meu gosto pessoal e poder aceitar as escolhas de cada criança, afinal não é porque eu aprendi a costurar antes dela que eu tenho direito de dizer qual roupa ela precisa.  Essa costura exige dar à criança alternativas, afinal costurar necessita recursos variados, materiais, variedade e, sim, claro, isso justifica um consultório cheio de materiais um tanto não convencionais!

Esse trabalho de costura tem como base uma busca pela autenticidade, uma busca pelo modelo único. Não estou propondo costura em série. Uma autorização e uma parceria para a busca da sua própria roupa, aquela que ninguém poderá ter igual. Simples assim, porque não existe outra igual.

Costurar é mesmo muito bom! Continuo encantada com a tarefa diária de construir junto com as crianças o caminho delas de escolhas, de aproximação pessoal, de vestirem-se delas mesmas. Nesse caminho sobram tecidos, botões, linhas, tesouras, carretilhas, alfinetes e muita beleza.  Crianças costuram muito bem.